Desigualdade de gênero: Mulheres da Arqueologia

Atualizado: 10 de ago. de 2021

A Arqueologia investiga diferentes grupos de seres vivos ao longo do tempo através da materialidade produzida e descartada por esses seres. Como materialidade podemos entender tudo que foi produzido e alterado pelos grupos humanos no passado ou presente recente, seja a produção de instrumentos ou as construções em terra. Desse modo, a Arqueologia não se restringe somente ao estudo de objetos, incluindo também as alterações na paisagem e a história oral de grupos locais.



No Brasil, a arqueologia surgiu no final do século XIX, muito próxima das ciências naturais e suas práticas classificatórias que esteve confinada a museus praticamente até meados do século seguinte, sem uso político ou social. Significados políticos da arqueologia só surgem a partir da década de 1930 e são ligados à revalorização do passado nacional promovida pelo movimento modernista daquela década e da anterior. São campanhas preservacionistas que favoreceram a institucionalização da arqueologia nas universidades brasileiras e a formação de arqueólogas/os no país.


Além disso, a profissão de arqueólogo(a) no Brasil foi regulamentada em 2018. De acordo com a lei, são considerados profissionais em arqueologia àqueles que sejam formados em cursos brasileiros de ensino superior reconhecidos pelo Ministério da Educação, ou em cursos de ensino superior estrangeiros desde que o titulo seja revalidado por um curso brasileiro reconhecido pelo Ministério da Educação. No Brasil, são considerados os profissionais que possuam pelo menos uma das seguintes qualificações curriculares

  1. Graduação (plena) em Arqueologia – Cursos de antropologia com habilitação em arqueologia não são considerados.

  2. Mestrado cuja dissertação seja resultado de pesquisa arqueológica + 2 anos e exercício de atividades comprovadas relacionadas ao campo profissional da arqueologia.

  3. Doutorado cuja tese seja resultado de pesquisa arqueológica + 2 anos e exercício de atividades comprovadas relacionadas ao campo profissional da arqueologia.

É importante observar que em cursos de docência acadêmica, apenas podem concorrer profissionais que tenham, pelo menos, mestrado ou doutorado em arqueologia plena – ou seja, formação num programa de pós-graduação em arqueologia (veja mais abaixo quais existem no Brasil). Também não serão considerados arqueólogo(a)s aqueles que possuírem apenas cursos de especialização em arqueologia, independente do seu reconhecimento pelo MEC ou pelo IPHAN.


Em 1994, Mary Beaudry e Jacquelyn White publicaram um trabalho inspirador sobre a trajetória da participação e influência de mulheres no campo da arqueologia histórica nos Estados Unidos, com base nas publicações da revista Historical Archaeology. Buscando disponibilizar um quadro similar para o Brasil, acompanhamos as publicações de três das nossas principais revistas especializadas editadas entre 1983 e 2015. Os periódicos, todos classificados como B1 no Qualis Periódicos da CAPES em 2015, são a Revista de Arqueologia, iniciada em 1983 e editada pela Sociedade de Arqueologia Brasileira; a CLIO-Arqueológica, desde 1984 editada pela Arqueologia da UFPE4 e a Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, editada pelo MAE/USP desde 1991.


O exame dos títulos, resumos, palavras-chave e referências bibliográficas dos artigos publicados mostra que 1% dos artigos publicados é relativo ao que se poderia associar a uma arqueologia de gênero. Apenas 12 dos 1068 trabalhos publicados entre 1983 e 2015 indicam ‘estudos de gênero’ ou termo correlato como palavra-chave, ou dialogam com bibliografia feminista ou se apoiam em etnografias arqueológicas com foco em mulheres (sobretudo ceramistas). Ampliando um pouco mais os veículos de divulgação para incluir outros periódicos, livros e capítulos, chega-se a outros quarenta e poucos títulos.


No Brasil, a visibilidade e o reconhecimento da atividade das arqueólogas parece ser confirmada através de diferentes marcadores. No quadro de bolsistas de produtividade do CNPq no ano de 2015, por exemplo, 51% das bolsas de produtividade tinham mulheres como titulares, em equivalência ou superioridade numérica em todas as categorias, menos a 1C, onde dois terços dos bolsistas são homens. Já no quadro de associadas/os da Sociedade de Arqueologia Brasileira, em outubro de 2015, a diferença é ligeiramente maior: no qual 54% das/os sócias/os são mulheres, enquanto os homens respondem por 46%. A mesma diferença, ou superior, pode ser observada na relação entre mulheres/homens em todos os níveis de titulação de pós-graduação. Apenas entre os graduados os homens predominam (57%), mas, a contar pela relação entre graduandas (72%) e graduandos (28%) afiliadas/os à SAB em 2015, a situação pode mudar nos próximos anos.


Sendo assim, no Brasil precisa existir mais visibilidade para todas as mulheres que são arqueólogas através de incentivar a profissão e buscar a equidade em pesquisas.


Fontes:

Arqueologia e Pré-história

Floripa Arqueológica

Scielo Brasil - A saia justa da Arqueologia

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